Acolhimento Familiar x Acolhimento Institucional

Você sabe quais são as diferenças entre Acolhimento Familiar e institucional? E por que, hoje, no Brasil e nos países desenvolvidos, a família acolhedora é mais recomendada do que a colocação da criança em abrigos? A resposta está nas vantagens evidentes que o Acolhimento Familiar traz para o desenvolvimento e socialização da criança – sobretudo na primeira infância –, em relação ao acolhimento institucional. Mas o problema não está nos profissionais que se empenham em fazer o seu melhor nas instituições, e sim no formato desse tipo de acolhimento.

Continuamos nosso bate-papo com a Doutora em Serviço Social e Coordenadora do Plano de Primeira Infância de Campinas (SP), Jane Valente, em que ela defende a experiência desses profissionais para ampliar a abrangência do Acolhimento Familiar, além de explicar um pouco mais sobre os inúmeros benefícios dessa modalidade para as crianças e adolescentes.

IGA – Qual o papel das instituições para a implantação dos serviços de Acolhimento Familiar?

Jane: Devemos evitar qualquer tipo de confronto entre as instituições e os serviços de Acolhimento Familiar. Até porque, além de desnecessário, as instituições podem ser coparticipativas nessa mudança. É muito importante conscientizar os profissionais do acolhimento institucional porque nós falamos de Acolhimento Familiar. Nós não falamos de modismos, não falamos porque nós queremos apenas que algo diferente seja implantado no país. Nós estamos falando da prática, de pesquisas, de resultados.

IGA – Como podemos utilizar os resultados dessas pesquisas para demonstrar os benefícios do Acolhimento Familiar?

Jane: Sempre tenho como referência as obras de Donald Winnicott, tão importante como pediatra e psicanalista, que estudou as crianças no pós-guerra na Europa. Ele estudava as crianças que foram evacuadas das grandes cidades e levadas para o interior com o objetivo de preservar toda uma geração. E ele tem estudos que mostram o início da delinquência, que está nessa origem. Hoje a neurociência vem e nos traz imagens: a imagem do cérebro de uma criança negligenciada, a imagem do cérebro de uma criança que não está tendo um bom desenvolvimento. A neurociência vai falar de janela de oportunidades, de sinapses, de caminhos neurológicos.

Então, quando vamos juntando todo esse conhecimento, gosto de me referir às palavras do chileno Humberto Maturana, biólogo que estuda a biologia do amor, que diz que “O conhecimento do conhecimento nos obriga”. E é verdade, o conhecimento nos obriga porque nós precisamos mudar a realidade frente ao conhecimento que temos das coisas.

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Acolhimento Familiar: os vínculos e interações sociais são fundamentais para o desenvolvimento saudável da criança.

IGA – Qual o papel da família de origem, da família acolhedora e das instituições?

Jane: Acolhimento Familiar não é modismo. Falar hoje de Acolhimento Familiar é também falar de um empenho muito grande das políticas públicas de não retirar as crianças de suas famílias, de fazer o máximo para que essas crianças não saiam de suas famílias de origem, para que o território onde elas moram seja validado como território de proteção. É preciso olharmos para a problemática – pois todo mundo tem problemáticas – e ajudar a criança a ser criada no seio de sua família. Assim, seriam retiradas somente aquelas crianças que são a exceção da exceção, aquelas que realmente estão realmente correndo riscos.

O melhor lugar para uma criança em situação de risco não é uma instituição, mas sim uma nova família, uma nova oportunidade, para que ela possa continuar seu desenvolvimento.

Ao dizermos isso, não estamos falando mal das instituições. Já trabalhei em algumas e vejo o esforço que todos nós sempre fizemos para dar o melhor para a criança, mas o que ocorre é que o modelo não é o melhor.

 IGA – Como fica a criação de vínculos no Acolhimento Familiar?

Jane: A criação de vínculos é sempre uma pergunta recorrente em relação ao Acolhimento Familiar: “A criança vai criar vínculo com a família e depois vai ter que ir embora?” Mas a verdade é que uma criança que está em uma instituição também cria vínculos: com o jardineiro, com a cozinheira, com o educador, com o assistente social, com o psicólogo…os vínculos existem, pois sem vínculo o ser humano não existe.

Nós nos significamos como humanos através da relação que temos com outros seres humanos.

A criança está em vínculo o tempo todo. É interessante que muitas vezes temos medo dos vínculos bons, mas os vínculos bons se acomodam dentro do ser humano. Eu costumo dizer que, quando nós nascemos, é como se pendurássemos uma bolsa ao lado do corpo, e todo tipo de interação social que temos vamos colocando dentro ali dentro como experiência. Aí, quando crescemos e precisamos responder algo ao mundo, nós vamos até a bolsa e pegamos. Só que ninguém perguntou quem colocou essa experiência, se foi o pai, a mãe, ou disse que se não fosse pai nem mãe ninguém poderia colocar. Temos coisas que quem colocou em nossa vida foi um educador, um professor, um tio ou um amigo, e que nos faz ser quem somos hoje. É essa mentalidade mais aberta que precisamos ter para acolher crianças.

“As crianças não são nossas, as crianças são filhos do mundo” (Khalil Gibran)

Não é fácil trabalhar com alta complexidade, com crianças afastadas da família. É preciso ter entendimento do sistema de garantia de direitos que envolve tudo isso, que significa trabalhar o tempo todo com o Poder Judiciário, com os Conselhos Tutelares, com os serviços do Poder Executivo, trabalhar em rede. Ou seja, não é fácil adquirir um conhecimento como esse.

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Todos pela criança: É preciso utilizar a experiência dos profissionais do acolhimento institucional em prol do Acolhimento Familiar.

IGA: E como trazer a experiência dos profissionais do acolhimento institucional para o Acolhimento Familiar?

Quando eu falo sobre as pessoas que se dedicam ao acolhimento institucional, eu sei que todos estão se dedicando para que seja uma coisa boa, mas a questão é o formato: essa questão do que é viver em família, viver em comunidade, que não há como ser reproduzida em uma instituição.

Precisamos aprender a história para dar significado de porquê mudar a história. Não podemos negar a nossa história. Hoje nós precisamos desses profissionais que trabalham no acolhimento institucional para que seja possível entender porque estamos falando de Acolhimento Familiar, usar a experiência deles. Isso é um convite que já vem ocorrendo na cidade de Campinas (SP) ao serviço de acolhimento. Lá já temos esse serviço, em que os próprios profissionais vão transformando o acolhimento institucional em Acolhimento Familiar, e assim possamos atender o melhor interesse da criança, já que é para isso que trabalhamos.

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