Você sabe o que significa Atitude Adotiva? Como explicou Suzana Schettini, Diretora de Relações Públicas da Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção (ANGAAD) esse conceito se aplica além do universo da adoção. “A Atitude Adotiva nos ensina sobretudo a respeitar as diferenças e singularidades do outro, a respeitar sua subjetividade e seu ser. Essa atitude deveria estar na fundamentação de toda a sociedade”. No caso da adoção, também tem a ver com administrar muitas informações, entender comportamentos às vezes inadequados, sentimentos contraditórios e respeitar uma história que não conhecemos e da qual não fizemos parte. Leia sobre o tema a seguir e assista também ao vídeo com a entrevista em nosso canal no Youtube.

IGA: O que é e como ocorre a Atitude Adotiva?

Suzana Schettini: A Atitude Adotiva nasce na família adotiva, evidentemente. Na família adotiva acontece um fenômeno essencialmente amoroso, que é a filiação por afeto, na verdade, a única forma de filiação. Quando nós adotamos filhos e nos tornamos pais por adoção de crianças que nasceram de outras pessoas, cujo DNA nós não conhecemos – sabemos um pinguinho da sua história, mas na essência não sabemos a genética, não sabemos sobre seus antepassados –, adotamos crianças estranhas e as tornamos nossos filhos, o que é a relação mais íntima, complexa e amorosa da face da terra.

A Atitude Adotiva nos ensina sobretudo a respeitar as diferenças e singularidades do outro, a respeitar sua subjetividade e seu ser. Essa atitude deveria estar na fundamentação de toda a sociedade.

Precisamos compreender que as diferenças fazem com que a gente se complemente. O mundo não seria o mesmo se todas as pessoas pensassem igual e tivessem habilidades iguais. A Atitude Adotiva nos mostra exatamente isso: que somos parte de um todo e que esse todo não seria o mesmo se não houvesse as partes, cada uma com sua importância, com uma sinergia, no sentido de que todos precisam trabalhar juntos numa mesma direção na construção desse todo.

Quando trabalhamos com adoção, vamos compreendendo que essa adoção não pode se restringir somente à família adotiva. Ela precisa realmente “transcender” para a sociedade através de atitudes.

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Atitude Adotiva: compreender as diferenças e trabalhar juntos em uma mesma direção.

IGA: Quando falamos em adoção, há uma diferença entre ação e atitude. Como podemos explicar esses conceitos?

Suzana: Para exemplificar, a ação seria um único pontinho e atitude seria uma linha repleta de pontinhos, uma continuidade. Sou eu que decido qual atitude quero tomar em relação à determinado fato. Então assumir a Atitude Adotiva no dia a dia é uma decisão pessoal, um exercício diário.

A Atitude Adotiva é colaborativa e cooperativa, nunca competitiva. Perdemos muito tempo com competições na sociedade: quem sabe mais, quem faz melhor, quem manda mais. Na Atitude Adotiva eu compreendo que sou parte de um todo e, principalmente, que eu vejo e aceito meu semelhante da forma como ele é.

Voltando para a família adotiva esse olhar é condição essencial nas relações entre pais e filhos que se formam por adoção. A partir do momento que nós trazemos uma criança para nossa família, precisamos compreender que essa criança vem com uma história, uma trajetória de vida, sobretudo as crianças maiores, já com experiências mais contundentes de traumas e dores que precisam ser entendidos e compreendidos.

Ou seja, não há nada de automático ou de imediato, é um processo que vai acontecendo aos poucos, então a Atitude Adotiva precisa estar primeiramente nos pais que se aventuram em adoções diferenciadas, em adoções de crianças maiores, de grupos de irmãos ou ainda de crianças com necessidades especiais. Precisamos dar à criança o tempo necessário para que ela possa fazer a travessia de uma história para outra.

Há muitas dificuldades por conta do imediatismo: é como se a criança entrasse na família e imediatamente tivesse que aprender a cultura familiar daquelas pessoas, absorvendo todos os fundamentos daquela família. E não é assim que ocorre.

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Suzana Schettini, Diretora de Relações Públicas da ANGAAD.

IGA: Como aplicar a Atitude Adotiva à realidade da criança que está sendo adotada?

Suzana: Num primeiro momento, é preciso ter em mente que aquela criança precisa ser recebida com suas diferenças. Temos que nos adaptar para compreender onde ela está, como ela pensa, de onde ela veio, o que ela consegue. É preciso valorizar a história da criança. Isso parece um pouco difícil, porque muitas vezes são histórias terríveis. Mas se não conseguirmos aceitar a história dela, como vamos amá-la? Então é preciso ter um olhar abrangente, tranquilizador, porque a criança vai se organizar a partir da nossa tranquilidade, então temos que ter muita tranquilidade, paciência e boa vontade nos primeiros tempos após a adoção, dando amor e carinho.

É importante que a criança tenha o tempo necessário para que ela possa transformar sua história, para que possamos realmente transformar a vida dela. Ainda somos muito impacientes com os progressos e muito ansiosos com as possibilidades. E se pressionarmos demais, a criança vai recuar, pode se retrair, pois vai compreender que não está atendendo às expectativas dos adultos e isso atrapalha sua evolução. Assim, devemos apresentar e inserir de forma gradual nossa cultura, nossos valores e tudo o que nós queremos que a criança aprenda. Na Atitude Adotiva não há como essa trajetória ser de outra forma, para que a família possa enfim se consolidar.

IGA: Como estender a Atitude Adotiva para toda a família e apresentar essa realidade aos tios, avós e primos?

A criança também precisa se perceber pertencente no restante da família, e isso não é muito fácil, pois na família temos vários entendimentos. É comum os pais adotivos serem contestados em sua decisão quando, na verdade, deveriam receber apoio – a família não entende, por exemplo, o porquê da adoção, se o casal já tiver filhos biológicos.

É importante conversar com toda a família antes da chegada do filho, para que eles tenham participação no projeto de adoção, ao mesmo tempo que os ajudamos a entender determinados conceitos. Na gestação biológica, a família tem nove meses para se preparar: nossos pais se tornam avós, nossos irmãos se tornam tios e todos participam do processo. Na adoção acontece a mesma coisa.

Fico muito temerosa quando algum pretendente diz que percebeu que a família não é a favor da adoção, portanto não irá mais falar a respeito com eles a respeito. Mas é aí que é preciso falar! Não precisamos ter medo. Precisamos também ter atitude em relação à dificuldade da nossa família, que não está tão envolvida no processo como nós, e permitir que eles aprendam, que eles também tenham acesso a informações, porque o preparo anterior adoção vai determinar a tranquilidade na chegada da criança. Precisamos trabalhar algumas questões e ajudar nossa família a entender que a filiação adotiva tem as suas especificidades, e que o filho adotivo vem com uma história.

Leia aqui sobre a importância do preparo para a adoção.

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Atitude Adotiva: é preciso Incluir toda a família na nova realidade.

É claro que é na chegada da criança que as coisas de fato começam a acontecer, por mais que tenhamos nos preparado. Porque essa criança vem com toda uma complexidade de reações e de comportamentos, que não são aqueles com que estamos habituados, afinal ela nunca esteve numa família, ela está aprendendo a ser filho. Essa criança vem com uma referência de família muito diferente, e para nós às vezes é difícil compreender isso. Ela não sabe o que é um pai, uma mãe, uma avó. E não adianta brigar com a família toda, é preciso ter Atitude Adotiva inclusive com nossos familiares.

Uma dica? Vá com calma, espere um pouquinho para levar seu filho conhecer a todos, mas não os deixe de visitar, porque a criança tem que perceber que a família também vai adotá-la. Com o tempo e paciência, essa adoção também acontece por parte da família, leve mais ou menos tempo. Isso depende muito de nós mesmos enquanto pais, de nós termos essa tranquilidade, que inclusive é minha palavra favorita.

Você sentiu rejeição do seu irmão, por exemplo? Não brigue, dê a ele um tempo para ele perceber que a sua família está se organizando, que as coisas estão acontecendo como em qualquer família. Afinal, não existe família perfeita e a família adotiva também não é: os filhos adotivos vão fazer birra como qualquer criança e passar por todas as crises de desenvolvimento – às vezes essas crises ocorrem de uma forma mais deslocada porque eles, em geral, estão em processos regressivos de desenvolvimento.

Essa situação de conflito é benéfica, pois nos dá a oportunidade de trabalharmos pedagogicamente várias questões. É fantástico quando uma criança adotiva faz toda a família crescer: de repente todos os familiares estão entendendo de adoção, todo mundo está falando para os amigos e vizinhos sobre adoção.

Em resumo, é muito importante ter Atitude Adotiva, enquanto pais adotivos, com a nossa família. Claro, é preciso lembrar que nada é automático, nada é maravilhoso, num primeiro momento teremos muitas dúvidas e dificuldades. Mas é preciso ter a calma e a tranquilidade necessárias para dar ao outro o tempo de assimilação, da mesma forma com a criança, para que ela absorva a cultura familiar. A criança vai aprender a ser filho e nós estamos aprendendo a ser pais. Nossa família vai aprender a conviver com essa criança, lembrando que o filho adotivo não é um “coitadinho”, não deve e não precisa ser tratado assim de forma alguma, tampouco como “diabinhos”. São crianças somente! É a partir do momento em que o vínculo acontece, que nós nos tornamos pais e mães. O dia a dia é exatamente o mesmo de qualquer família formada biologicamente.

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