Fases da adoção tardia: como lidar

Toda adoção envolve desafios, mas é importante saber que eles não são maiores do que na maternidade biológica. São apenas diferentes e, especialmente na adoção tardia , costumam ser mais intensos nos primeiros anos após a adoção, no período em que tanto a família quanto a criança estão se adaptando à nova vida.

Por isso, quanto mais informação você tiver, quanto maior for seu conhecimento sobre adoção tardia, mais condições você terá de entender os comportamentos de seu filho e saber como lidar com eles. Isso pode ajudar a tornar essa fase menos insegura, mais fácil de administrar e, consequentemente, rica em aprendizados para todos.

É claro que, por se tratar de comportamento humano, não podemos considerar as fases da adoção tardia como regras fixas, mas sim como características que aparecem com frequência no período denominado “estágio de convivência”.

O que é “estágio de convivência” na adoção

O estágio de convivência na adoção, compreende o período de integração, um tempo para a criação de vínculo e estabelecimento de bases sólidas para um relacionamento pautado na confiança e na harmonia. E isso não acontece da noite para o dia, em nenhum tipo de relacionamento. Na adoção tardia não seria diferente.

Tanto os pais quanto a criança ou o adolescente precisarão de tempo e de conhecimento mútuo para que o vínculo se forme e haja o desenvolvimento de um afeto verdadeiro e duradouro.

Mas é preciso sempre ter em mente que, quem adotou é o adulto da relação, o lado mais estruturado emocionalmente, e, portanto, é ele quem deve prover a segurança emocional para que a criança/adolescente possa transpor as dificuldades e desafios que surgirão em cada fase da adoção, da maneira mais suave possível.

O medo e outros aspectos que caracterizam a adoção tardia

Alguns trabalhos excelentes já foram publicados sobre o tema. Mas antes de começarmos a falar das fases da adoção tardia propriamente dita, achamos importante comentar sobre as emoções ligadas ao sentimento de perda e de insegurança que inevitavelmente acompanhará essa criança.

Por mais triste que possa parecer a vida dessa criança, sua vivência anterior é a única realidade que ela conhece e da qual foi retirada. Sobre isso, há o livro de Sherrie Eldridge, cujo título “20 COISAS QUE FILHOS ADOTADOS GOSTARIAM QUE SEUS PAIS SOUBESSEM” são os tópicos abaixo, que falam por si próprios e achamos que vale a reflexão:

1 – Sofri uma perda profunda antes de ser adotado. Você não é responsável.
2 – Preciso que me ensinem que tenho necessidades especiais decorrentes das perdas causadas pela adoção, das quais não tenho por que me envergonhar.
3 – Se não lamentar minhas perdas, minha capacidade de receber amor de você e dos outros ficará comprometida.
4 – Meu pesar não resolvido pode vir à tona como raiva de você.
5 – Preciso de ajuda para lamentar minha perda. Ensine-me a entrar em contato com meus sentimentos a respeito da minha adoção e então valide-os.
6 – O simples fato de não falar sobre minha família biológica não quer dizer que eu não pense nela.
7 – Eu quero que você tome a iniciativa de conversar sobre minha família biológica comigo.
8 – Preciso saber a verdade sobre minha concepção, nascimento e história familiar, não importa quão dolorosos possam ser os detalhes.
9 – Acho que minha mãe biológica não me quis porque eu era um bebê ruim. Preciso que você me ajude a jogar fora essa vergonha tóxica.
10 – Tenho medo que você me abandone.
11 – Posso parecer mais íntegro do que sou na verdade. Preciso que você me ajude a revelar as partes de mim que mantenho escondidas para que eu possa integrar todos os elementos da minha identidade.
12 – Preciso adquirir uma sensação de poder pessoal.
13 – Por favor, não diga que eu pareço ou ajo igual a você. Preciso que você reconheça e valorize nossas diferenças.
14 – Deixe-me ser eu mesmo. Mas não permita que eu me afaste de você.
15 – Por favor, respeite minha privacidade em relação à minha adoção. Não conte às demais pessoas sem o meu consentimento.
16 – Aniversários podem ser difíceis para mim.
17 – Não poder conhecer todo o meu histórico médico às vezes pode ser uma fonte de tensão.
18 – Tenho medo de ser difícil demais de lidar.
19 – Quando eu expressar meus medos de maneira antipática, por favor fique do meu lado e reaja com sabedoria.
20 – Mesmo que decida procurar minha família biológica, sempre vou querer que vocês sejam meus pais.

Com isso em mente, vamos falar sobre as fases da adoção tardia que são muito comuns, porém pouco faladas e, por isso mesmo pegam muitos adotantes de surpresa, criando frustrações, medos e inseguranças – e muitas vezes uma sensação de solidão – que poderiam ser minimizados através da informação e da conscientização.

As principais fases da adoção tardia e como lidar com cada uma delas

Baseados no excelente artigo da servidora da seção de adoção da Vara da Infância e Juventude do Distrito Federal, Niva Maria Vasques Campos, denominado “Adoção Tardia – Características do Estágio de Convivência”, dividimos as fases em 5 grandes grupos com suas fases relativas, para melhor compreensão:

1 – Comportamentos Regressivos e Agressivos
2 – Desvendando a nova vida: novos ritmos, novas faces sociais, novos modelos parentais, novos vínculos
3 – Hábitos revistos e a construção de um novo “eu”
4 – Desenvolvimento desse “novo eu”, com fortes emoções na busca do equilíbrio
5 – A vida segue

Nesse artigo vamos falar sobre o grupo de comportamentos regressivos e agressivos nas fases da adoção tardia

Apresentamos a seguir as características e algumas recomendações para lidar com cada fase dos comportamentos regressivos e agressivos. No próximo vamos explorar detalhadamente os demais grupos.

Ressaltamos que colocamos aqui o conteúdo apoiado no artigo de Niva Maria Vasques Campos  conforme já citado acima somado ao nosso conhecimento, muita literatura e troca de informações com pessoas que têm vivenciado histórias semelhantes. No entanto, recomendamos fortemente que todos que estejam passando por essa situação, procurem sempre orientação de profissionais capacitados e habilitados nos campos multidisciplinares – psicologia, neurologia, psiquiatria – bem como especialistas nas áreas jurídica e médica para acompanhamento individualizado e permanente.

E, especialmente, que procurem um Grupo de Apoio à Adoção em sua cidade. Existem questões que são muito próprias à adoção e frequentar os encontros de um grupo de pós-adoção irá ajudar a trocar ideias, a conhecer casos de quem já viveu o mesmo que você e a não se sentir sozinho nessa fase. Para saber se sua cidade tem um Grupo de Apoio, consulte o site da Associação Nacional de Grupos de Apoio à Adoção (ANGAAD). Isso fará toda a diferença no desenvolvimento de uma relação saudável em todas as fases da adoção tardia.

Fases da adoção tardia marcadas por comportamentos regressivos

Voltam a fazer xixi na cama ou na roupa, pedem para tomar leite na mamadeira, querem entrar na barriga da mãe adotiva ou mamar no peito. Esses são alguns exemplos de comportamentos regressivos dessa fase da adoção tardia.

Conforme defende Niva Maria “é como se a criança retornasse ao estado imaginário de recém-nascido e quisesse viver uma espécie de segundo nascimento. Este ‘retorno’ funciona como um resgate de fases importantes do desenvolvimento infantil que podem ser melhor vividas junto aos novos pais. É importante que os adotantes observem e vejam a criança buscando o ‘renascer’ deles. O contato corporal, pele com pele, os cuidados prestados pelos pais à criança nesta fase são essenciais e gratificantes. Recomenda-se também a prática da Shantala (massagem) que promove esse contato corporal, relaxa tensões e estabelece um vínculo com o adotante”.

Fases da adoção tardia marcadas por comportamentos agressivos

Normalmente após a etapa inicial onde há um encantamento de ambos os lados, presenciamos uma das fases da adoção tardia marcada por comportamentos agressivos do ponto de vista físico ou verbal, sem motivos aparentes. Isso pode deixar os adotantes desorientados e frustrados, pois não identificam as causas e sentem-se perdidos e até mesmo culpados por não saberem como lidar com a situação.

Amor, paciência e compreensão do contexto geral são fundamentais nessa fase. Muitas vezes, os motivos para a agressividade são gatilhos ativados por lembranças ou cenas que passam rapidamente pelo inconsciente da criança/jovem e nem mesmo eles conseguem identificar o porquê da raiva.

Outras vezes, a agressividade é um mecanismo de defesa que funciona como uma espécie de “teste”, ainda que também no nível inconsciente, onde o adotado quer certificar-se de que não será abandonado novamente, e quer fazer isso antes de se apegar.

Pode ser também que esteja sentido saudades dos colegas e cuidadores do abrigo, mas tem medo de expressar seus sentimentos e voltar para lá, ser devolvido por “reclamar”. Leia novamente os itens 3, 4 e 5 do livro “20 coisas que os filhos adotivos gostariam que seus pais soubessem”, citados acima, que tudo fará sentido.

Há um outro tipo de agressividade particularmente notado nas fases da adoção tardia, que é aquele voltado contra a mãe adotiva.

Mães, por favor não sintam-se rejeitadas. Simbolicamente é natural que a criança projete na figura materna as questões do abandono que ela sente em relação à mãe biológica. E ao ser agressiva contra a mãe adotiva, está apenas tentando se proteger de mais uma dor. No fundo ela teme um novo abandono.

Como sempre, paciência, amor e tempo são as melhores recomendações, além é claro de orientações profissionais, como já mencionamos acima.

Cada uma das fases que estamos tratando aqui serão superadas e as adaptações ocorrerão conforme o ritmo da criança e da família. E esse será um dos temas do nosso próximo artigo. Acompanhe o nosso blog, compartilhe esse artigo e mande seus comentários. Vamos trocar experiências e ajudar quem está passando pelas mesmas fases.

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