Estresse tóxico na infância: o que é, quais as consequências e como evitar

“Dê todo o carinho, colo, suporte e atenção possíveis a seus filhos, sobretudo nos primeiros anos de vida”. Parece óbvio, mas a frase acima resume boa parte do que falaremos hoje no blog do IGA. É através principalmente do carinho – algo simples, mas extremamente eficiente – que os pais e cuidadores ajudam a evitar o tão falado estresse tóxico na infância. Mas o que é, como acontece e quais são seus efeitos no organismo?

O estresse tóxico ocorre quando a criança passa por situações atípicas e estressantes de forma constante e repetida, por período prolongado e sem o apoio de um adulto cuidador, ou seja, sem ter para onde correr. Entre essas situações, citamos como exemplo negligência às suas necessidades, abuso físico e emocional, exposição à violência doméstica, como por exemplo brigas constantes entre os pais, histórico de vício em drogas dentro da família, bullying e também problemas mentais e casos de pobreza extrema.

O estresse tóxico na Primeira Infância tem consequências graves para o desenvolvimento, sobretudo do ponto de vista neurológico. No estresse tóxico, o sistema de resposta do corpo é ativado excessivamente, aumentando a produção de adrenalina e de cortisol, e com isso enfraquece o desenvolvimento da arquitetura cerebral. Como se sabe, os neurônios não se regeneram, e a “quebra” deles logo na infância – quando o cérebro está em constante desenvolvimento e aprendizado – traz consequências para a vida toda.

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Estresse tóxico: carinho, suporte e atenção são essenciais.

É importante destacar que o estresse tóxico nada tem a ver com o stress do dia a dia, quando uma criança recebe um não e faz birra, ou quando está com fome ou sono. Trata-se de algo muito mais específico e sério.

Existem três tipos de estresse:

 

– leve: de curta duração e baixa intensidade = é positivo;

 

– moderado: um pouco mais intenso e sério = não compromete;

 

– estresse tóxico: é intenso e prolongado = traz consequências emocionais e neurológicas.

Estresse leve: é positivo para o desenvolvimento da criança, pois gera novas ligações cerebrais (sinapses) e ajuda a adquirir novas habilidades. Causa um pequeno aumento na liberação de hormônios do estresse e também na frequência cardíaca. Ocorre em situações como o nascimento de um irmão, tomar uma vacina ou lidar com pequenas frustrações.

Estresse moderado: mais sério e com maior duração, porém não tão intenso quanto o estresse tóxico. Conta com apoio dos adultos, o que permite total reestabelecimento da criança. Ocorre, por exemplo, com crianças que passam por doenças e precisam de maior tempo de cuidado e tratamento.

Estresse tóxico: ativação prolongada dos sistemas de resposta do organismo, sem qualquer tipo de proteção ou amparo. Supera a capacidade de regeneração cerebral da criança, causando alterações cerebrais e psíquicas profundas, que perduram pela vida toda. Se ocorrido na Primeira Infância, leva a consequências ainda mais sérias. Pode causar dificuldades no relacionamento pessoal e no aprendizado, tendências violentas e suicidas, problemas hepáticos e cardíacos, obesidade, delinquência, tendência a depressão, problemas com drogas, entre outros. O estresse tóxico é observado com frequência em crianças que viveram em abrigos nos primeiros anos de vida, que tiveram várias rupturas emocionais causadas pela retirada dos pais, ou que passaram por várias instituições e adoções malsucedidas.

Segundo o Dr. Charles Nelson, neurocientista norte-americano coordenador do Programa de Intervenção Precoce de Bucareste (BEIP), crianças que foram expostas desde cedo a situações estressantes por períodos prolongados têm uma resposta menor ao estresse quando adultas, o que significa que o cortisol (hormônio responsável por ajudar o organismo a controlar o estresse) está em um nível mais baixo devido à constante ativação na infância. Por isso, quando adultos acabam não reagindo bem a desafios estressantes, mostrando uma resposta inadequada a essas situações.

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Crianças expostas desde cedo a situações estressantes têm resposta menor ao estresse quando adultas, desencadeando problemas.

O período mais crítico acontece até os 2 anos de idade, também como conhecido como Primeiros Mil Dias. No caso dos bebês, atender suas necessidades de fome, frio ou percepção de ameaças é primordial. O adulto que acolhe e cuida ajuda a amortecer os impactos da ativação do mecanismo que lida com o estresse. “Para o recém-nascido, a sensação de fome é uma ameaça à vida”, explica Anna Maria Chiesa, enfermeira e especialista em saúde coletiva da Universidade de São Paulo, no documentário “O Começo da Vida”. “Essa percepção de que algo vai mal dispara o alarme que é o choro. Quando o cuidador reconhece e atende essa necessidade do bebê, ele vai ter uma memória de satisfação. Se ao contrário, ele não é atendido, por ter sido exposto aos hormônios do estresse, pode ficar irritadiço, apático, perder peso e sinapses cerebrais”, afirma.

“As crianças cujo desenvolvimento corre riscos são aquelas que vivem em circunstâncias muito difíceis”, enfatiza o Dr. Jack Shonkoff, diretor do Center on the Developing Child, da Universidade de Harvard, nos Estados Unidos. “Não se trata de apenas um dia ruim, aqui ou ali. Mas algo constante, dias, semanas, meses, anos, onde há pouca interação positiva, em que o nível de estresse é muito alto. Não há tempo para pensar no amanhã, eles só tentam viver mais um dia.“ (O Começo da Vida).

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Estresse tóxico: ambiente favorável na infância é primordial.

Um ambiente favorável diminui neuroses, ansiedades e demais problemas psíquicos, facilitando a convivência e o aprendizado no ambiente escolar e futuramente também nos ambientes profissional e familiar. Em sua pesquisa, o norte-americano James Heckman, Prêmio Nobel da Economia em 2000, provou matematicamente que investir em uma criança rende mais do que a Bolsa, ao avaliar os retornos para sua vida adulta e a sociedade.

Crianças que passaram por estresse tóxico, precisam ter acompanhamento psicológico profissional, muitas vezes até na fase adulta.

Por fim, voltamos a falar sobre afeto! O psiquiatra britânico John Bowlby já explicava em sua Teoria do Apego, a importância fundamental dos fortes vínculos afetivos entre o bebê e seu cuidador. A conclusão é uma só: para os pequenos, uma rotina tranquila, segura e amorosa, traz benefícios para toda a vida!

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