Há anos, psicólogos, educadores e médicos vêm abordando a relevância da construção de vínculos saudáveis, estáveis e duradouros nos primeiros anos de vida, para o desenvolvimento neurológico e emocional.

Nas últimas décadas, com o advento da tecnologia, a neurociência vem aprofundando a questão, com pesquisas e estudos que avaliam as consequências causadas pelo abandono e negligência. A neurociência provou que a institucionalização prolongada, especialmente nos primeiros anos de vida, pode causar danos não só emocionais como neurológicos. Estudos comprovam a importância do afeto, vínculo, estímulos e socialização na Primeira Infância para um desenvolvimento adequado do cérebro. E que o ambiente neste período, aliado à genética, determina as ferramentas que teremos ao longo da vida e a forma como veremos o mundo, a nós mesmos e ao outro.

Por que a Primeira Infância é tão importante? Quando o aprendizado acontece? Como os traumas, a negligência, a falta de afeto e vínculos afetam o desenvolvimento neurológico? Quais as consequências da institucionalização? Essas perguntas são recorrentes, especialmente quando se trata de crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade.

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Primeira Infância: experiências iniciais têm efeito decisivo na produção e manutenção das sinapses, construindo a arquitetura do cérebro e contribuindo para a boa saúde mental.

Nas últimas décadas, a neurociência não só confirmou o que muitos educadores, psicólogos, pais e cuidadores já haviam percebido na prática, como trouxe provas científicas sobre temas até então controversos. Com os avanços da tecnologia de mapeamento cerebral, através de eletroencefalograma (EEG) e complexos tipos de ressonância magnética, a ciência começou a entender de forma bem mais concreta e aprofundada como o cérebro é, como funciona e como se modifica.

Hoje, entende-se que uma pessoa é o conjunto tanto da sua expressão genética como do ambiente em que ela vive, especialmente nos primeiros anos de vida.

É na Primeira Infância – período compreendido entre 0 e 6 anos de idade – que acontece a maior parte das conexões sinápticas que teremos ao longo da vida. Como as crianças pequenas “aprendem de fora para dentro”, as experiências iniciais – sejam elas boas ou ruins – têm um efeito decisivo na produção e manutenção das sinapses, constroem a arquitetura do cérebro e também contribuem para uma boa saúde mental.

Segundo o Center on the Developing Child, da Universidade de Harvard, que realiza estudos e pesquisas nessa área, a Primeira Infância, especialmente nos seus dois primeiros anos de vida, é comprovadamente um período crítico e de profundo desenvolvimento do cérebro. E para se ter um desenvolvimento saudável do cérebro e do comportamento são necessários cuidados positivos, sensíveis e responsivos. Os estudos apontam que interrupções nesse processo de desenvolvimento podem prejudicar a capacidade de aprendizagem e de se relacionar com outras pessoas. O estresse tóxico – quando a criança vivencia uma situação estressante forte, frequente e prolongada, sem apoio adequado de um adulto – pode gerar repercussões por toda a vida. Entre os exemplos, estão negligência, abuso físico ou emocional, exposição à violência, vício em drogas, problemas mentais ou pobreza extrema.

A ciência comprovou que para um indivíduo desenvolver toda a sua potencialidade, especialmente do ponto de vista cognitivo e emocional, é necessária uma composição intensa e constante de afeto, vínculos, estímulos e socialização.

Já é sabido que a aprendizagem começa ainda no útero e que é verdadeira a noção de que o feto sente e ouve. Nessa fase o feto já consegue perceber o afeto ou a rejeição da mãe, seu equilíbrio emocional ou suas inseguranças e medos e até mesmo o quanto o entorno é acolhedor ou uma fonte de ameaça.

Ou seja, o que experienciamos do útero à Primeira Infância, somado à nossa genética, será responsável por todo o ferramental neurológico que teremos para lidar com as situações no decorrer da vida. De forma automática e muitas vezes inconsciente, levaremos para a fase adulta a forma como vemos o mundo, o outro e a nós mesmos. O mundo pode ser ameaçador ou um lugar seguro e o mesmo acontece com nossas crenças em relação às outras pessoas. Também podemos nos ver positiva ou negativamente, entre tantas outras concepções que temos registradas em nosso cérebro.

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O que experienciamos do útero à Primeira Infância, somado à nossa genética, será responsável por todo o ferramental neurológico que teremos para lidar com as situações no decorrer da vida.

Outro ponto fundamental é o que se chama de neuroplasticidade, que é a capacidade do cérebro encontrar novos caminhos sinápticos e fazer aprendizados de formas diferentes. A plasticidade cerebral muda com o avanço da idade e diminui com o tempo: em alguns domínios, a mudança é possível durante toda a vida (por exemplo, aprendizado e memória), enquanto em outros, a mudança é muito mais difícil e exige muito mais esforço.

Os efeitos da negligência para o cérebro

Mas o que acontece com o cérebro se houver negligência, abandono e violência nesses anos iniciais? Com certeza, haverá consequências e a extensão depende da genética, do nível de adversidade do ambiente e do período em que as intervenções positivas tiveram início. O maior e mais aprofundado estudo neuro-científico sobre esse tema foi feito na Romênia pelo Hospital de Crianças de Boston, da Universidade de Harvard, que vem mapeando desde os anos 2000 os efeitos da institucionalização precoce no desenvolvimento do cérebro de crianças. 

Essa pesquisa vem servindo de referência científica para vários outros estudos e também para a neuropediatria moderna. Além do rigor científico e peso das instituições envolvidas no estudo (Harvard, Tulane e Maryland), soma-se o fato de ser randômica e longitudinal: a escolha de quais crianças ficariam nas instituições ou no acolhimento familiar foi aleatória e essas crianças vêm sendo acompanhadas desde o ano 2000. O estudo em instituições reflete não só a exclusão de todos os fatores recomendáveis para um desenvolvimento saudável, como também possibilitou um estudo aprofundado de condições incontroláveis e impossíveis de serem medidas clinicamente ou em ambientes familiares.

Órfãos da Romênia

O “Programa de Intervenção Precoce de Bucareste”, mais conhecido comoÓrfãos da Romênia, revelou que crianças que vivem em instituições por tempo prolongado, especialmente durante os primeiros anos de vida, apresentam déficits cognitivos significativos (incluindo diminuição de QI), aumento do risco de transtornos psicológicos, redução da capacidade linguística, dificuldade de criação de vínculos afetivos, crescimento físico atrofiado, entre inúmeros outros sérios problemas, alguns deles irreversíveis.

No estudo, os neurocientistas constataram que existe uma janela de tempo, denominada período crítico (que vai até os 2 anos), que afetam campos cognitivos e emocionais.

O consenso da neurociência é de que nunca é tarde demais, mas quanto antes melhor.

As crianças vêm sendo avaliadas periodicamente para verificar se existem outros períodos sensíveis para a recuperação e quais são os mecanismos associados a essa mudança – na última fase, em andamento, serão reexaminadas aos 21 anos, para determinar se a negligência e a intervenção têm efeitos mais duradouros. E a partir de 2020, a pesquisa terá continuidade, coordenada pelos mesmos neurocientistas da Romênia, desta vez com crianças de instituições de São Paulo.

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Desenvolvimento cerebral de bebês e crianças pequenas depende do estímulo de pais ou cuidadores.

 

A importância do afeto

Segundo os autores da pesquisa, o cuidado infantil vai muito além de apenas trocar fraldas ou alimentar as crianças. O desenvolvimento cerebral de bebês e crianças pequenas depende do estímulo dos pais ou cuidadores, ou seja, de interação social, responsiva e afetiva, em sintonia com o que afirmava John Bowlby em sua Teoria do Apego. É através dos estímulos gerados pelo afeto, que a criança amplia seu entendimento de mundo e estabelece padrões de pensamento, raciocínio lógico e linguagem que vão ser presentes em todas as fases de sua vida.

Em resumo, há um consenso prático e inúmeras pesquisas neuro-científicas que comprovam a importância da convivência familiar e comunitária, especialmente na Primeira Infância. A conclusão não deixa dúvidas: crianças e adolescentes em situação de risco e vulnerabilidade, que precisam ser retirados de seus lares, não devem viver em instituições e sim em família e precisam ter a prioridade absoluta respeitada.

Há que se fazer um trabalho intenso com as famílias de origem, para que sejam reintegrados quando possível. Também é urgente ampliar o acolhimento familiar no Brasil, que embora pouco difundido por aqui é o mais utilizado nos países desenvolvidos. Essa forma de acolhimento tem se mostrado especialmente eficaz na Primeira Infância quando a situação ainda precisa de um tempo pra ser resolvida, e na adolescência, quando diminuem as chances de adoção. E ao se esgotarem as possibilidades de retorno à família, precisamos urgentemente tornar os processos de adoção mais ágeis e humanos, ao respeitar o tempo da criança.

Sandra Sobral é Presidente do Instituto Geração Amanhã. Graduada em Jornalismo, tem Pós-graduação em Marketing e em Neurociência pelo Instituto de Ensino e Pesquisa Albert Einstein de São Paulo.