Os princípios da primeira infância segundo a neurociência

Continuando nossa série sobre os aspectos neurológicos e os benefícios do convívio em família para o desenvolvimento infantil, trazemos no texto de hoje uma série de informações sobre arquitetura cerebral, aspectos cognitivos e as implicações dos estímulos no desenvolvimento durante os primeiros anos da criança, explicadas de forma clara pelo Dr. Nathan Fox, neurocientista coordenador do Programa de Intervenção Precoce de Bucareste (BEIP) – o mais importante estudo mundial sobre os efeitos da institucionalização –, professor de psicologia e do Instituto do Estudo da Criança da Universidade de Maryland – EUA

Mas primeiro, uma breve história…

No meio dos anos 90, houve uma reunião na Casa Branca, em Washington DC, convocada pela então primeira-dama Hillary Clinton, para discutir a |Primeira Infância (seis primeiros anos de vida) e o que acontece no cérebro durante essa época do desenvolvimento infantil. Como resultado dessa reunião, houve um grande interesse do público sobre os efeitos das primeiras experiências no desenvolvimento cerebral. Assim, a fundação John D. e Catherine T. MacArthur, com sede em Chicago, pediu ao professor e neurocientista Charles Nelson que organizasse um grupo de estudos, sendo que metade deles seria composto por neurocientistas que estudam ratos, camundongos e primatas não-humanos e a outra metade por psicólogos e psiquiatras que estudam o desenvolvimento infantil e neonatal. Ele organizou esse grupo para que pudessem se reunir e discutir sobre uma linguagem comum que poderia ser criada entre os dois lados – neurocientistas e psicólogos/psiquiatras – com relação às questões sobre o desenvolvimento infantil. Esses profissionais se reuniram por cerca de dez anos, e o PEIB foi uma consequência desse grupo em particular, chamado de Grupo de Trabalho sobre Experiência Precoce e Desenvolvimento Cerebral.

Ao final do primeiro trabalho, um dos membros, o pediatra Jack P. Shonkoff, reuniu um grupo de pesquisadores para um novo trabalho, sendo que alguns faziam parte do estudo inicial sobre desenvolvimento cerebral e outros vieram da Academia Nacional de Ciências. O intuito era criar um livro chamado “Dos neurônios à vizinhança”. Ele organizou um novo grupo chamado “Conselho Científico Nacional para a Criança em Desenvolvimento” e dessa vez o objetivo era criar uma nova linguagem comum que pudesse ser compreendida por profissionais e formuladores de políticas sobre o que sabemos a respeito do desenvolvimento do cérebro na Primeira Infância, desde o nascimento até os seis anos de vida.

História contada, podemos apresentar então os princípios fundamentais que foram desenvolvidos pelo Conselho. São três conceitos principais de desenvolvimento que contribuem para o desenvolvimento saudável da criança:

PRINCÍPIO 1: A arquitetura do cérebro é estabelecida nos primeiros anos e impacta na aprendizagem, no comportamento e na saúde ao longo de toda a vida.

Quando você pensa em arquitetura, logo vem a ideia de design e da construção de uma casa ou edifício, certo? Bem, quando falamos em arquitetura e desenvolvimento cerebral, estamos fazendo uma analogia com as plantas baixas, a estrutura e a estratégia que um arquiteto usaria para criar um projeto. O conceito é que o cérebro é construído ao longo do tempo, começando nos primeiros anos de vida, aprendendo primeiro as habilidades simples, com as habilidades mais complexas sendo construídas sobre elas. A primeira coisa a fazer em uma casa é construir o alicerce, para só então levantar as paredes e instalar a fiação para finalizar a construção.  O desenvolvimento cerebral é muito parecido com isso, começa com uma base e então as habilidades simples geram as habilidades mais complexas, sobrepondo-se umas às outras.

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Nos primeiros anos de vida, o cérebro aprende primeiro as habilidades simples, com as habilidades mais complexas sendo construídas sobre elas.

As capacidades cognitivas emocionais e sociais estão entrelaçadas ao longo da vida. Antes, na psicologia, estudávamos cognição, emoção e desenvolvido social separadamente, mas agora sabe-se que os três andam juntos, particularmente nos primeiros anos de vida.

A conclusão desse primeiro princípio é que uma base sólida nos primeiros anos de vida melhora as chances de resultados positivos, ao passo que uma base fraca aumenta as chances de dificuldades posteriores. A capacidade de mudança do cérebro é menor com o tempo, pois a plasticidade cerebral diminui com a idade. Por isso é muito mais fácil para uma criança aprender um novo idioma do que para um adulto, pois o esforço fisiológico do cérebro para esse aprendizado é muito menor na criança.

Outro princípio da arquitetura do cérebro é que os circuitos neurais são conectados de forma ascendente – o que casa perfeitamente com o fato de que primeiro aprendemos habilidade simples para então adicionar as habilidades mais complexas.

Os neurologistas costumavam pensar que o cérebro se desenvolvia como um todo ao mesmo tempo, mas agora sabemos que não, e que de fato diferentes partes do cérebro desenvolvem-se em ritmos e em idades diferentes.

Nos estágios iniciais do desenvolvimento cerebral, as áreas associadas a informações sensoriais como visão, audição e tato são as que se desenvolvem primeiro. Só depois é que surgem as habilidades relacionadas à linguagem, com a função cognitiva completa aparecendo mais tarde, no decorrer do crescimento.

Ao comparar as sinapses cerebrais de uma criança aos seis meses e aos seis anos de idade, podemos verificar um aumento exponencial de conexões.  Já quando comparamos as sinapses de um adolescente de quatorze anos com uma criança de seis anos, verificamos que a quantidade de conexões do adolescente é menor, pois algumas conexões foram perdidas através da poda cerebral. Isso ocorre porque ao longo do desenvolvimento não necessitamos mais de algumas ferramentas que utilizávamos no início do aprendizado, mais ou menos como uma bicicleta em que no início colocam-se rodinhas de apoio, que depois podem ser dispensadas quando aprendemos a nos equilibrar. Nos primeiros anos temos também o que se chama de períodos sensíveis.

Períodos sensíveis são períodos de tempo limitados durante os quais o efeito da experiência inicial no cérebro é particularmente forte. Eles permitem que a experiência instrua os circuitos neurais a processarem informações de maneira adaptativa e fornecem informações essenciais para o desenvolvimento normal, além de alterar o desenvolvimento permanentemente. São momentos críticos, nos quais a experiência tem um efeito profundo no cérebro.

PRINCÍPIO 2: Relacionamentos estáveis e atenciosos e interações responsivas do tipo “serve and return” moldam a arquitetura cerebral.

Interações do tipo “serve and return” ou interação responsiva constroem cérebros e habilidades. Imagine um jogo de tênis, onde você joga uma bola e ela é rebatida de um lado para o outro. O que queremos ilustrar é que uma mãe, um cuidador e um bebê estão interagindo entre si dessa maneira o tempo todo. A mãe diz uma coisa, o bebê diz outra. O bebê diz algo e a mãe responde a ele, num processo contínuo de “serve and return”.

Crianças mais novas naturalmente buscam interação, balbuciando, gesticulando e fazendo expressões faciais, e os adultos respondem da mesma forma. Essas interações são essenciais para o desenvolvimento de circuitos cerebrais saudáveis.

Devemos pensar nas implicações e apoiar a qualidade dos relacionamentos nos locais de cuidados para crianças, comunidades e lares, pois essas interações dão suporte ao desenvolvimento para uma arquitetura robusta do cérebro.

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Interações sociais são essenciais para o desenvolvimento de circuitos cerebrais saudáveis nas crianças.

Existem estudos sobre o ambiente da linguagem do bebê, realizados em 1995 com famílias que vieram de três tipos diferentes de ambiente: crianças com mães em situação de pobreza, com mães de classe média e crianças com pais que possuíam educação superior. Os resultados mostraram que aos 16 meses de vida, não havia diferenças entre os bebês em termos de produção de linguagem, mas ao longo do tempo a lacuna foi ficando maior, o que já pode ser observado nos primeiros 24 meses de vida.

A metáfora final é o que chamamos de controle de tráfego aéreo. Em algum local do cérebro, você precisa estar apto a prestar atenção, inibir impulsos e manter mais de uma coisa na memória, para realizar mais de uma coisa ao mesmo tempo. É a tão falada multitarefa.

O responsável por esse controle de tráfego é o córtex pré-frontal. Chamamos de controle de tráfego aéreo porque o profissional responsável por isso em um aeroporto tem de prestar atenção em muitos aviões ao mesmo tempo, que estão manobrando, decolando e aterrissando.

Então, o funcionamento executivo do cérebro é um grupo de habilidades que ajudam a nos concentrarmos em múltiplos fluxos de informação ao mesmo tempo, estabelecer metas, fazer planos, tomar decisões, revisar e resistir a ações precipitadas. Entre as funções executivas estão:

Controle Inibitório: filtra pensamentos e impulsos para resistir a tentações e distrações.

– Memória de trabalho: retém e manipula informações no cérebro durante curtos períodos de tempo, geralmente de três a cinco informações por vez.

– Flexibilidade cognitiva: ajuste a demandas, prioridades ou perspectivas alteradas, ou seja, adaptação a mudanças.

Pesquisas apontaram que quando esses conceitos são aplicados na infância, trazem mais autocontrole e preveem melhor saúde física e menos uso de substâncias ou casos relacionados à violência na vida adulta.

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Estresse tóxico: sistema de resposta do cérebro ativado excessivamente na infância enfraquece o desenvolvimento da arquitetura cerebral.

PRINCÍPIO 3: O estresse tóxico nos primeiros anos de vida pode prejudicar o desenvolvimento saudável da criança. 

Quando falamos em stress, queremos destacar as consequências de um ambiente estressante para um cérebro em desenvolvimento. Mas é importante distinguir: não estamos falando do stress com o trabalho ou com o trânsito, mas sim de situações de estresse diárias durante o desenvolvimento. O stress é dividido em três níveis ou tipos:

Positivo: aumentos leves na frequência cardíaca e elevações leves nos níveis de hormônio do estresse;

Tolerável: respostas de estresse sérias e temporárias, protegidas por relacionamentos de apoio;

Tóxico: ativação prolongada de sistemas de resposta ao estresse e ausência de relacionamentos de proteção.

Sabemos que os relacionamentos amortecem os efeitos do estresse, então aprender a lidar com o estresse moderado pode criar um sistema de estresse que chamamos de saudável. Já no estresse tóxico, o sistema de resposta do corpo é ativado excessivamente, enfraquecendo o desenvolvimento da arquitetura cerebral. Sem o devido cuidado por parte dos adultos responsáveis, o estresse tóxico, causado ou associado à pobreza, negligência, abuso ou depressão materna pode trazer consequências sérias para o desenvolvimento, a saúde e a aprendizagem a longo prazo.

 

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