Fases da adoção tardia – sentimentos e desafios

Para concluir nossa série especial sobre Adoção Tardia, vamos falar sobre os demais grupos das fases da adoção tardia, com seus sentimentos e desafios. Se você não acompanhou os artigos anteriores, leia “O que é adoção tardia: mitos e verdades” e também ”“Fases da adoção tardia: como lidar.

No artigo anterior explicamos um pouco sobre as questões relativas ao medo e a importância da qualidade da relação no estágio de convivência na adoção tardia. Dividimos as fases da adoção tardia em 5 grandes grupos, baseados no artigo da servidora da seção de adoção da Vara da Infância e Juventude do Distrito Federal, Niva Maria Vasques Campos, denominado “Adoção Tardia – Características do Estágio de Convivência”.

Abaixo descrevemos novamente os 5 grupos:

1 – Comportamentos regressivos e agressivos
2 – Desvendando a nova vida: novos ritmos, novas faces sociais, novos modelos parentais, novos vínculos
3 – Hábitos revistos e a construção de um novo “eu”
4 – Desenvolvimento desse “novo eu”, com fortes emoções na busca do equilíbrio
5 – A vida segue

Já falamos do grupo 1.  Agora seguimos com os demais grupos.

Desvendando a nova vida: novos ritmos, novas faces sociais, novos modelos parentais, novos vínculos

NOVOS RITMOS

Se por um lado pode haver comportamentos regressivos do ponto de vista emocional conforme descrito no grupo anterior.

Tanto no aspecto físico quanto no intelectual, percebe-se uma evolução em ritmo acelerado: rápido aprendizado, desenvolvimento físico visível (muitas vezes com ganho de peso), intensa curiosidade e bastante interesse em aprender.

É como se as novas informações garantissem o seu valor pessoal e a aceitação social. E isso gera um aspecto gratificante para a família que adotou, que oferece, no ambiente familiar, os estímulos adequados, com afeto e atenção que toda criança merece.

NOVAS FACES SOCIAIS

Os pais também iniciam uma nova vida a partir da chegada desse novo filho. Muitos amigos próximos se afastam e muitos familiares não compreendem o porquê daquela adoção tardia.

Algumas pessoas fazem comentários inadequados a respeito da forma que as coisas estão sendo conduzidas, ou ainda projetam seus piores medos em relação à questões de saúde, questionando o fato de o histórico médico não ser conhecido. Falam também sobre receios de possíveis traumas e feridas emocionais das crianças e comentam atitudes comportamentais que, provavelmente, em filhos biológicos seriam desconsiderados ou tratados com naturalidade.

Sabemos que não é fácil passar por todos esses desafios de forma solitária. Por isso, consideramos que para manter a equilíbrio emocional, que dará à criança o suporte que ela precisa, é recomendável buscar a orientação de profissionais capacitados que possam desmistificar cada uma das “suspeitas” levantadas e/ou identificar problemas reais para tratá-los se for o caso.

E frequentar os encontros dos grupos de pós-adoção, promovidos pelos Grupos de Apoio à Adoção, pois com a parceria de pessoas que vivem situações semelhantes, fica muito mais fácil perceber a realidade e não se deixar contaminar pela insegurança das pessoas que estão fora da situação.

NOVOS MODELOS PARENTAIS

Se no item anterior falávamos da força emocional que o adulto precisa ter para dar suporte à criança, é porque ela, mesmo sem se dar conta, terá que fazer um grande esforço para assimilar os novos modelos parentais.

É natural que a criança imite seus pais, mas na adoção tardia ela vai se esforçar para reaprender esse comportamento querendo se parecer com os novos pais, buscando estabelecer laços. E muitas vezes, essa busca se alterna com explosões de raiva, nas quais a criança grita: você não é meu pai/minha mãe.

NOVOS VÍNCULOS

A criação de novos vínculos não obedece a uma lógica. Precisa de tempo, confiança e consistência.

Mesmo entre pais e filhos consanguíneos, não há garantia nenhuma de vinculação, pois essa se faz pelo afeto e pela presença. Na adoção tardia, o tempo da formação de vínculos vai depender também da forma como a criança se expressa e está receptiva para o amor dos adotantes.

Muitas crianças não aprenderam a expressar ou a receber amor adequadamente e precisam de tempo para esse aprendizado. É necessário reconhecer se a criança tem medo ou vergonha de receber um abraço por exemplo, e, a partir daí, respeitar o tempo dela e ir trabalhando os aspectos envolvidos.

Os pais devem estar disponíveis para as necessidades afetivas das crianças, mas não devem impor à elas as suas próprias carências emocionais. Paciência e amor são feitos de sensibilidade para entender do que o outro precisa. Às vezes a criança desenvolve uma afinidade maior com um dos pais – aliás isso ocorre em todas as famílias, inclusive entre irmãos. A confiança e a dinâmica familiar vai se construindo e a partir daí os vínculos se fortalecem.

Hábitos revistos e a construção de um novo “eu”

REVER HÁBITOS DIÁRIOS

Imagine você mudar para um país onde não conhece ninguém: lá todas as comidas são diferentes, você vai morar em uma casa grande com desconhecidos e terá de dividir tarefas com eles. Os eletrodomésticos são mais modernos e você terá que aprender a mexer em todos, sem quebrar nada para não passar vergonha. Vai ter que acordar na hora que eles acordam, ir dormir na hora que eles querem dormir Ah, e também vai estudar numa escola onde todas as regras são diferentes.

Deve ser mais ou menos assim que a criança sente os primeiros meses em uma adoção tardia. Assimilar novos hábitos não é fácil para o cérebro de ninguém, especialmente quando envolve uma grande carga emocional.

Tudo será novo, do sabor do almoço até o armário onde guardou a escova de dentes. Uma adaptação total da criança à nova casa, à nova família e à nova vida. E também haverá a adaptação da família ao novo membro na casa.

No quesito hábitos alimentares, é comum o relato de pais dizendo que a criança ganhou bastante peso no início da adoção tardia. É como se ela quisesse aproveitar tudo de uma vez. E do lado dos pais, é como se eles quisessem prover tudo o que a criança foi privada até aquele dia.

Depois da fase inicial, a criança começa a ficar mais exigente e passa a querer só coisas que ela seleciona, o que normalmente não costuma ser a escolha mais saudável.

A dica aqui é lembrar o que falamos acima, no item “novos modelos parentais”, sobre a questão da imitação. A criança tende a imitar os pais. Portanto se os pais comem alimentação “de verdade” tais como frutas, sucos naturais, legumes coloridos: esse pode ser um bom padrão a ser imitado.

Segue algumas ideias sugeridas por Niva Maria em seu artigo:

“Estimule o paladar do seu filho(a) com alimentos variados, prove-os, enfeite-os. Faça uma competição de sabores com alimentos amargos, azedos, doces, salgados, experimente com seu filho(a), faça ele(a) perceber qual parte da língua sente aquele sabor. Diga-lhe que estas partes precisam ser estimuladas, para ele (a) sentir melhor o sabor dos alimentos, até mesmo daqueles que ele ou ela já gosta.

O desenho animado ‘Ratatuille’ (a história do ratinho cozinheiro) é uma boa dica para curtir em família. Use o bom senso, certos alimentos podem ser substituídos por outros, caso a criança apresente intolerância ou repulsas significativas. Se tiver dúvidas peça orientação ao pediatra.”

CONSTRUÇÃO DE UM NOVO “EU”

Faz parte do processo da reconstrução do ego, a criança criar fantasias: algumas vezes será resgatada da família adotiva por outros pais, outras vezes fantasia que descobre que seus pais biológicos são os mesmos que seus pais adotivos e assim vai criando seu romance familiar.

Segundo Niva Maria, o confronto dessas fantasias com a realidade é inevitável e cabe à família adotante a tarefa de compreender e ajudar a criança. É comum também a criança identificar-se com super-heróis.

Com isso ela passar a ter sentimentos de onipotência e invulnerabilidade, com o objetivo de criar uma valorização de si mesma, através de uma imagem positiva. Sentimentos que fazem parte do processo da construção do novo eu. São fantasias que a fazem sentir-se poderosa e com valor.

Desenvolvimento desse “novo eu”, com fortes emoções na busca do equilíbrio

Realizar uma adoção tardia é na mesma medida desafiador e gratificante, mas está longe de ser uma tarefa fácil. Tanto a criança quanto o adotante passam por cargas emocionais fortíssimas, das quais sairão transformados.

Emoções ambivalentes e intensas, com as quais os adultos adotantes precisam estar abertos para lidar. Só assim, conseguirão estabelecer os vínculos afetivos, apesar das fases críticas na adaptação. Ambos os lados – pais e filhos – sentem essas fortes emoções, mas cabe aos pais a responsabilidade maior na qualidade da construção dos vínculos parentais.

Enquanto essa busca de vinculação é realizada pelos pais, é comum notar que a criança oscila na sua maturidade. Mostra-se “muito avançada” para alguns assuntos e “imatura” para outros. Isso se deve ao seu histórico da vida pregressa e é preciso sensibilidade e cuidado para não julgar e nem culpar. Ao contrário devemos ensinar.

Por exemplo, a criança pode não conhecer alguns objetos ou mesmo não saber distinguir cores e formas, mas ter um conhecimento sexual muito adiantado para a sua idade. Em relação à interação em sociedade, para algumas crianças é necessário ensinar quais demonstrações de carinho são aceitáveis entre pais e filhos, entre irmãos, entre amigos e quais não são, porque faz parte do amor educar, ensinar, estabelecer limites sempre com amor, porém com firmeza e segurança, que a criança tanto precisa nesse período de adaptação.

A vida segue

E assim vai continuar essa historia… dias mais suaves, outros nem tanto.

A cada fase suas muitas alegrias, superações, dúvidas, preocupações e conquistas. Sua jornada pode ser mais leve se você contar com uma “rede” de apoio formada por amigos e/ou por um grupo pós-adoção.

Também vale compartilhar experiências, ler, estudar sobre comportamento humano pra entender que a base de tudo é o amor e a cooperação.

E chegar à conclusão que vale a pena cada esforço, cada emoção. Afinal o que mais é a vida, senão dar e receber amor?

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