Adotar é mais que bonito!

Quem tem o privilégio de ser pai ou mãe de um filho adotivo sabe: é impossível descrever em palavras os sentimentos da adoção, tamanha a força do vínculo afetivo que se cria com os filhos!

Claro que a palavra amor é a primeira que nos vem à mente – e com toda razão. Mas a adoção é muito mais! São histórias, vivências, uma relação de vínculo e confiança que se estenderá e se fortalecerá pelo resto da vida. É sobre isso que falaremos nessa semana aqui no blog, em mais um bate-papo com o psicólogo, especialista no assunto e pai de cinco filhos por adoção, Luiz Schettini Filho. Confira a seguir:

IGA: Indo direto ao ponto, como o senhor descreveria a adoção?

Schettini: A adoção vai muito além de simplesmente acharmos uma coisa boa, aceitável ou romanticamente confortável. A adoção não pode se explicar nesses termos. As palavras são insuficientes para descrever certas ideias. Se perguntarmos para alguém, por exemplo, o que é uma coisa “fofa”, ninguém saberá dizer. Vão surgir exemplos como algodão ou coisas do tipo, mas descrever em palavras o que de fato é uma coisa “fofa”, eu creio que é impossível! Isso é muito interessante porque nós humanos acreditamos ter uma qualidade que supera a todos os outros seres, que é a fala, a comunicação verbal, e por essa razão nos achamos extraordinários. Com a adoção acontece o mesmo.

A adoção não pode ser descrita, mas sim inscrita, pois é uma experiência pessoal.

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Adoção: amor, carinho, afeto e vínculo para a vida toda!

IGA: Fale sobre a perspectiva da adoção através de sua experiência pessoal.

Schettini: Eu tenho cinco filhos adotivos e se me perguntarem como eu descrevo isso, eu não sei dizer. Cada um tem uma história, em um determinado momento. Como são cinco, cada um chegou em uma época diferente. O primeiro foi adotado com 24 horas de vida e hoje tem 45 anos de idade. E o último, que foi adotado aos dois meses de idade, está agora com 20 anos.

Meus quatro primeiros filhos já saíram de casa, casaram-se, cada um no seu canto, vivendo sua vida. O último, que tem 20 anos de idade, é especial, então creio que ficará conosco o resto da vida, dado o grau de dependência quase total que sua condição determina. E isso é interessante porque o adotamos com plena ciência de suas condições. Não foi algo que “apareceu” depois. Portanto ele faz parte de uma história familiar e eu não consigo me ver sem ele!

Tem uma história interessante que ocorreu com o meu filho mais velho: alguns anos atrás, ele tinha cerca de trinta anos, precisou ir ao oftalmologista porque surgiu repentinamente uma deficiência visual em um dos olhos. Quando fomos ao médico, foi constatado que ele havia perdido a visão naquele olho. Depois de realizados todos os exames, ficou constatado que o problema era toxoplasmose. Isso me deixou preocupado, pois fiquei pensando se poderia ser uma toxoplasmose gravídica, ou seja, um problema da gravidez da mãe biológica dele, que eu nada conhecia, e que poderia passar para o outro olho. Mas não era, foi um problema adquirido depois.

Há poucos anos ele precisou voltar ao oftalmologista para verificar o olho que estava bom e me pediu para ir com ele. Mesmo sendo adulto, com quase 40 anos, não questionei e o acompanhei na consulta. O médico fez algumas perguntas, entre as quais se na família havia algum caso de glaucoma. Ele ficou pensativo sem saber responder, então virou-se para mim e perguntou: “pai, na nossa família tem alguém com glaucoma?”. Aí eu disse que era preciso informar ao médico que ele era adotado. Ao que ele me respondeu surpreso e com bom humor: “É mesmo, eu esqueci!”.

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Experiência pessoal: toda família tem sua história, repleta de particularidades!

A relação afetiva da adoção, da filiação, 

não tem nem começo nem fim.

IGA: É possível apontar alguma diferença, em termos de sentimento, em relação ao filho biológico e ao filho adotivo?

Schettini: A relação afetiva da adoção, da filiação, não tem nem começo nem fim. É uma relação visceral, não consigo ver diferenças. Acho até que elas existem, no sentido de que as famílias que têm filhos adotivos constroem em geral – mas com algumas exceções – uma relação afetiva muito profunda, uma vez que não têm os elementos da família que gera seus próprios filhos para se assegurar em fatos históricos.

Como não há o elemento histórico e biológico que nossa cultura tanto valoriza, há uma necessidade natural na família adotiva de aprofundar as relações afetivas.  Nisso, há uma diferença entre as famílias que geram seus filhos e as famílias que têm seus filhos pela adoção.

Não quero dizer que as famílias formadas pela adoção são melhores ou piores, apenas não temos, nesse caso, o pressuposto da geração biológica que há nas famílias naturais e comuns. Entendemos isso. Hoje o conceito de família, até dentro da própria lei brasileira, já coloca a família como resultado de uma ligação afetiva. O vínculo puramente biológico caiu por terra: se há uma relação afetiva entre pessoas que se constituíram num grupo que convive, isso pode ser chamado de família.

Para a adoção não há uma explicação lógica!

Quando muito, temos uma explicação psicológica!

Gostou? Lei também nosso primeiro bate-papo com Luiz Schettini Filho, onde ele fala sobre “As dores da adoção”.

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